sábado, 8 de novembro de 2008

Em celulose.

“Uma esfera enorme na dor que era ver em contorno – cujo nome carecia pela infância do mundo – foi chamada, sabiamente, de Sol por um amigo. O tal Sol já nos fazia arder em carne e suportar, no vermelho da pele, o calor do deserto.
O nome do deserto eu não lembro, pois caso me submetesse ao esforço para lembrar um nome, por certo desmaiaria e poria em chamas o meu corpo, no ouro da areia. O caldo de minha mente, marcado em ponto fixo, tornava-se involuntário. Pois que então eu seguia, na busca de um nada, do nada e ao nada. Mas era sim, um nada muito mais que a soma de tudo e, por muitas vezes, eu caía em desacordo comigo mesmo. E eu caía também no chão e afundava junto à areia para o centro da Terra, para esquecer-me lá. Para fazer de mim, mais lenha estalando na fornalha.
Então veio a vírgula deste meu relato. Fazendo sombra com a mão esquerda, pude enxergar quase que na combustão de minha vista, uma pequena folha de papel sobre as dunas. Nela, portanto, me fiz em papel. No papel que vai durar o tempo necessário. Mas vai também, no futuro, diluir-se em água. Aí, o papel vai matar minha sede. E será essa a minha solução; serei o soluto e o fim dos problemas. Você me lê; então, estará tudo bem."

sábado, 23 de agosto de 2008

Strawberry Fields Forever.

--- Mas sabe, eu sei quando é um sonho. Quando é um sonho é mais gostoso, sempre, não, algumas vezes penso que sou eu mesmo. Que eu fui e sou aquele campo de morangos. E que piso perto de você, quando vou ao campo dos morangos. Vejo despencar os morangos, pois lá, a copa de suas árvores e bem alta e é possível vê-los despencar. Alguns morangos despencam rápido demais. Mas tudo parece funcionar bem. Mas tudo parece um sonho. Nada é real.

--- Campo de morangos para sempre, sempre, sempre. E não acho que alguém esteja na minha árvore. Ela está só, caíram os seus morangos. E lá se pode perceber que ela ainda não está triste, é claro. Porém, é preciso que cada qualquer pessoa cuide dela e faça brotar dela novos morangos. E não será tarefa difícil, é de longe a mais formosa árvore, que o laborioso nutritivo de um sonho regou. Fez-se germinar de pálpebras postas. E fez das noites mal dormidas a sua redoma de vidro. Agora vou, estou indo para o campo dos morangos, não há por que esperar. É para sempre.

--- Viver é fácil de olhos fechados, sem entender realmente o que você vê. Está ficando muito difícil de chegar lá. Acho que não mais conseguiremos ver, mesmo de olhos fechados. E como, então, chegar ao campo de meus morangos? É por pra tocar sua voz, do homem que apaziguou a vida de quem vive. E a voz dele guiará quem for ao campo dos morangos para sempre. Quando o caminho se mostrar, você já não conseguirá distinguir o Não do Sim. E tudo pode parecer um sonho. Mas sabe, eu sei quando é um sonho. E às vezes, é muito difícil saber...

--- Mas está tudo errado, por isso eu acho que discordo. Não se caem mais os morangos como antigamente. Não se permite que despenque em calma. E quando eu for àqueles campos, deixe-me te botar para baixo. Pois que eu fui, quero agora inflar meus pulmões do morango, do morango dos campos para sempre. Sempre, não, algumas vezes. E eclode o fim, quando o sempre dos morangos cai em minhas mãos. Não os quero pegar, quero vê-los cair lentamente apenas. É muito mais difícil faze-lo e acho que não sou mais eu. Algumas vezes, penso que sou eu mesmo lá, fazendo despencar morangos do alto da árvore. E nunca passa disso.

--- A copa de ramagem cinza ameaça cair, e eu não quero vê-la cair, quero apenas seus morangos. Não quero estar presente quando todos os morangos tocarem o chão de uma só vez. Como se fosse muito pedir morangos... Dora em diante, quero tê-los só para mim. Não será mais para sempre, e não será breve também. E as despencas de morangos se tornarão enfadonhas: chegou o fim. A grama dilui os morangos. Nada é o que parece ser. Mas sabe, eu sei quando é um sonho...

domingo, 17 de agosto de 2008

Relicário por escrito.

--- Os finos dedos de sua mão esquerda deslizavam sobre o papel, segurando com uma imensa leveza a caneta que seu pai lhe dera na noite anterior. Era uma caneta comprida e macia, envolta em certo pedaço de borracha e com a tampa repleta de furinhos e marcas provindas de uma boca nervosa. Não era lá a caneta mais bonita, mas ainda assim era confortante saber que, com ela, era capaz de escrever algumas palavras. Palavras essas, que depois de muito bem escritas, eram engavetadas de forma cruel e nunca mais lidas. Palavras proibidas de desfilar para outros olhos, senão os seus, diminutos e negros como o ébano. Palavras suas, parte dele mesmo.
--- E com a vinda do outono, cada folha que caía do ipê parecia brotar-lhe na cabeça uma nova idéia. E escrevia tudo, punha tudo que acontecia ao seu redor no papel, em forma de letras desalinhadas e redondas. Enquanto outros garotos brincavam no quintal, ele preferia sentar-se frente à lareira, despir os sapatos e escrever suas palavras. E daí saía o sorriso que o habitou por muito tempo. Muito tempo...
--- E ele escrevia sobre tudo, sobre monstros marinhos, cemitérios de padres, frutas anormais, barreiras no tempo, cidades londrinas e sobre sua pequena família. Era o seu amado vício, sua matéria-prima para viver e mover seu mundo. Não o compreendiam. De quando em quando, ouvia certas coisas do tipo: “Palavras! Simples palavras! Que é que se tem de mais nas palavras?!”. Ah, como tinha.
--- Então, foi triste. Foi muito triste quando acabaram-se as palavras e a tinta de sua caneta secou. Quando não era mais capaz de encontrar a fonte de sua felicidade. E ele criara uma certa dependência quase química pelas palavras. Não poderia viver sem elas. Achou, portanto, melhor calar-se; não falaria e não pensaria mais em nada.
--- Acabaram-se os sorrisos e toda a tristeza do mundo pesou em suas costas. As inúmeras palavras que ele escrevia todos os dias tornaram-se lágrimas pesadas e gélidas que despencavam com tremenda força de seus olhos, já vermelhos e ardidos. Então estava tudo acabado. Não haveria mais alegria em seu papel, haveria sim tristeza, muita tristeza.
--- No fim, a tristeza e a depressão moviam seu mundo. E ele viu nessa aí, a fonte de sua renascença. Escreveria sobre sua tristeza e sua incapacidade de grafar, de forma alegre, suas palavras. Contaria em seus versos, que a tristeza não tem fim. As emoções o trariam e o levariam. E foi assim, portanto. Triste fim, quando essa mesma tristeza é bela. Eis minha autobiografia.

terça-feira, 29 de julho de 2008

A moldura da carne

Todos os olhos estão ali. Todo museu resume-se a isso. Após o baque, vem o entendimento. É sempre assim...

“Por dentre a ribanceira além-mar, à luz de sete sóis de raio livre, ela banha-se na ponta d’água gotejante, num marulho efusivo sobre a nubla cor do celeste. Os cachos dela seguem o fluxo do riacho, donde nasce - da modéstia mãe - o brilhante gênio daquele veraneio. A fonte esparsa, cama de pedras pontiagudas, dá a luz ao jovem fio de vida, que desliza com calma sobre a terra.
Tal qual a perspectiva difusa do quadro, ela deixa escorrer pelo seio o frio das gotinhas miúdas e o floreio pálido de sua pele completa a moldura. De terras longínquas, onde o todo glacial encerra no tempo os vestígios de vida, ela surge, ainda não intimidade por arrepios sinistros que lhe envolvem todo corpo, ainda não teme o frio. Tanto que deixa o cabelo cor de fogo apagar-se sobre o leito manso da foz. Docemente ela emerge completamente e nada serena, como um jovial espírito que descobriu a liberdade. Está frio, muito frio. Embora o verão – que nada difere muito do inverno -, as águas têm aspecto negro. Ela assiste vidas irem por dentre as ondas sutis que lhes ceifam a vida. No semblante, ela é mãe e pai; é filho também. Filho que o tempo tomou, que foi como peixe para o fundo do mar. Mas ela não é a única na pintura, atrás, bem atrás, há um velho senhor de peito nu que aguarda virem as primaveras. Tem na ponta dos dedos uma margarida de três cores. Esse não é mais vivo. Tanto praguejou contra o frio, que este veio tomar seu corpo. É também gelo agora. No alto da pintura, as gaivotas (ou urubus?) parecem aguardar cada vez mais as mortes. Porque naquele cenário brilhante as pessoas põem-se a admirar tudo, esquecem-se do fim. E ele chega, porque é tudo a obra da carne viva.”

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Abismo: tanto no início quanto no fim da vida.

É infinito. É puramente infinito, como se não fosse sóbria essa mente maldita que vos fala. Não, não é sóbria. É triste, morta. Essa pena de abutre escreve sem meu esforço, sem minha real vontade. Está possessa. Sabes bem que não tenho apreço pelo exagero.
Acredite, quando sóbrio eu não lhe dou a dádiva de meus pensamente. Não penso em você.
Vêm vindo as sextas e essa alma cretina me toma.
É carcaça, tanto nojenta quanto imunda. Repleta, mas vazia. Repleta de trezentas frustrações, no que me cabe estas réplicas imundas. Tento lhe ser igual, como dois amantes díspares que pouco se falam. E nada tenho em mãos. Esse rabisco mal feito – santo fruto de seus dedos - seria o maior de meus tesouros, se não fosse meu óbito inacabado.
Áspero Amor, é maldita lacuna. É maldição.
Agora, se poupe dos choramingues, quando, amanhã, me ver boiando morto no rio. Nas caldas do inferno que me flamba. Não vá apagar meu doce incêndio com essas lágrimas tratadas. Deixa-me, por fim, cozinhar no fogo eterno. Fogo lento...
Quando quiseres rever-me, escaparei bravamente desse mar de saudade. Na verdade, transformarei minha saudade em minha maior arma. Terei ódio e rancor, mais, muito mais.
Tenho-lhe também ordens.
Deixa-me nova foto, essa que tenho é velha. Hora meu velho origami, já marcado por infinitas dobras. Está gasta pelas centenas de olhares. Está molhada de não sei o quê... de mentira, talvez. É, de mentira. Você acha que me conhece, apesar de nunca ter me visto. E se engana – como se engana.

No fim, esse teu maravilhoso se esvai no ar. Torna-se danoso às narinas públicas, nada que difere do princípio. Teu ar é santo, é puro, mas me basta. Enfim, basta. E não quero ter como última memória essa tua voz que me privou boas fases da vida, que apertou meus sentimentos sem nem dar-se o luxo de conhecê-los. E esse abismo agora é só meu. O rio logo abaixo – meu leito eterno – é escuro. E será de bom grado, meu chão arado. Minha cama negra de todo dia.
No fim – neste fim – vou pertencer ao grande oceano, lançar-me-ei aos seus semelhantes, feras famintas. Darei a elas minha carne, minha vida. E só.
Agora vou.
Basta...
...Eu te amo.

sábado, 14 de junho de 2008

Baile de máscaras e suco de laranja azedo

--- O cotidiano essencialmente humano. Que Burgess o tenha descrito na Laranja de forma tão bizarra é provável que consterne, o que provavelmente não consternará é que as mentes ignóbeis o tenham feito de forma concreta. A “dispensa social” tornou-se um perfeito estoque para máscaras. As pessoas tendem a fugir de assuntos filosóficos e teorias existenciais, sobretudo, no que concerne em “fichar” o perfil do jovem moderno e atribuir-lhes um padrão, ainda que instintivo. Elas fogem quando lhes é proposta uma reflexão social. E isso é normal, não digo que seja bom, mas é normal.
--- Eu sempre detestei a filosofia e não tenho a intenção de fazê-lo pensar nas questões éticas da vida, mas, às vezes, cabe um pouquinho de existencialismo. E agora veja, essa nomenclatura galante é mais uma tentativa de mascarar a verdadeira profundidade disto. Como eu disse, é instintivo.
--- Perceba que a Laranja Mecânica é uma de minhas obras favoritas, e não existe melhor forma de se definir o comportamento social. Portanto, hei de tratá-la aqui como a base para o entendimento dessa “embromação” filosófica. Volto a fazer menção das máscaras. Tem horas que agente é cão, gato, peixe e lagarto, e no final das contas não sabe mesmo que pele vestir. Não sabe, não é porque se esconde atrás da personalidade humana um caráter falso e mentiroso, mas porque vem do próprio jogo social à que estamos submetidos. Quero dizer, nas muitas atitudes cotidianas as pessoas precisam saber se manter um uma hierarquia, adequar o nível de “atenciosidade” e por muitas vezes, há uma certa necessidade em maquiar a verdade.
--- Como sugere Burgess, o homem moderno está mecanizado e desde o berço tem sua predestinação. Devo afirmar que isso não é lá muita coisa, aliás, não é coisa alguma. É tudo uma questão subconsciente, não tem “bom e mau”, “certo e errado”... não tem. E Isso é horrorshow! Não tem a pessoa boa; tem a pessoa com complexo tendencioso a manifestar ações positivas e não-prejudiciais aos demais. Todo mundo é mau e isso depende muito de que máscara estamos usando. E talvez seja por isso que o Teatro é tão fascinante! Uma forma explícita de exercer uma mentira cativante!
--- Tudo é relativo. Não gosto de frases feitas, mas tenho que admitir que colhemos aquilo que plantamos. Somos complementares uns aos outros, somos feito pó velho num cinzeiro; um grãozinho de pó não faz o boêmio levantar-se da cadeira e esvaziá-lo, creio que seja mais ou menos isso – e eu não sou a melhor pessoa para lhe dar exemplos. Tudo é relativo e toda rotulação é burra.
--- Tal qual De Large e seus druggies, essa insensatez torna-se absurda quando comparada aos moldes do homem civilizado. Mas se lhes disser que é menos a civilização e mais qualquer outra coisa – a mente, talvez – é bem provável que não acredite. E freud NÃO explica. Agora, ainda que eu tenha respeito às opiniões alheias, é extremamente frustrante essa sua descrença infundada. Algo que contribui para essa acoplagem sem freio. Essa massa cinzenta de marionetes mutiladas, as quais o domador é de natureza acéfala. É triste, mas essas reflexões “tardias” condizem perfeitamente com o século presente. E o mais revoltante é perceber que essas palavras bonitas – que eu tanto indago – são merda em pó no exercício de padronizar a sociedade. Aliás, tudo é merda em pó no que diz respeito à sociedade! E para o “grand finale" eu vos digo que todas essas sentenças lidas acima não passam da mesma ignorância relatada nas primeiras frases. É, eu não sei de nada, e nem você. Niguém sabe. Os dados estão na idade da pedra, e a ciência tem parecido cada vez mais um texto de Comte! Absurdo!
--- Tudo bem, vou me acalmar. É bem capaz que eu venha a perder minha sanidade – isso, se já não o fiz! – além do mais, é uma forma bem estranha de texto. Eu sei disso. E sei também que se cinco pessoas estejam lendo isso agora, é muito! Cinco? Talvez duas. Quer saber? Eu dispenso a sua atenção. Afinal, você não sou eu, e por mais que fosse, é mesmo tudo “tão bizarro quanto uma Laranja Mecânica”.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Sob o Céu turquesa, descansam olhos.

Qualquer que fosse a sombra projetada perto da menina, qualquer que fosse o rastro de penumbra sobre os gomos de sua saia, nada fazia valer importância. Qualquer coisa lhe era dispensável, qualquer sabor de morango, qualquer coisa alguma, tudo estava distante e proporcionalmente afastado ao seu estado de espírito. Quando os raios solares marcavam-na a pele, quando a chuva lhe feria os pulsos e, sobretudo, quando a relva matutina a tornava obcecada em descortinar formas às nuvens. Na verdade, era esse o seu plano de vida, viver com a vista nas nuvens, esperando ver novos contornos celestes. Sua máxima era sentar no toco tomado de fungos e descansar a vista nelas. Ela amava as nuvens. Passava horas a fio a desvendar a magia que elas encerram. Nada além da natureza, adornando a vida daquela menina, nada mais puro que sua íris espelhada, nada mais cativante... Maluca? Talvez. Ela não tinha muitos amigos, na verdade, não os possuía mesmo, e esse não era o maior dos problemas. As pessoas descrentes e instruídas, os dotados dos “bons modos” achavam-na a rainha dos bobos. Mas como vos disse, pouco importava a opinião pública, e quando a perguntavam o que de tão belo havia no céu, ela dizia estar “contormejando” as nuvens, contornava e almejava... É claro que o eufemismo não lhe poupava à exposição e, de certa forma, dava-lhe certos ápices de prazer quando distinguia um coelho, ou um cordeiro nas nuvens, aquilo aguava seus olhos de tal maneira inexplicável.
Traçou metas impossíveis e fez promessas aos deuses mais díspares. Sonhou puritanamente com sua liberdade e tentou por fim ao limite. E foste tão cruel consigo mesma que por muitas vezes teve a esperança abalada, tropeçou e cada dia a distanciava mais das nuvens. Começou a realizar um futuro frustrado, cheio de lacunas a se preencher por algo que nunca foi, e aos poucos derramava os sonhos no papel e os arquivava em gavetas há muito esquecidas. Fechou os olhos, então. Deitou a cabeça sobre a grama fresca e gélida e pôs-se a dormir.
A chaga eterna que marcou seu peito doía ardentemente sobre o botão de prata. Parte de sua alma estava nas nuvens, e jamais alcançaria seu id perfeito e selvagem. Aquilo de certa forma provocou um novo parto na menina. Um parto e um aparto de seus sonhos pueris, um aceno de mão eterno. Sem maiores brasas de esperança, e desiludida com seu platonismo celeste, ela guardou tudo numa caixinha chamada memória.
E cresceu. Virou mulher, estudou. Ficou famosa, invejada, rica. Fugaz, astuta, maliciosa. Pautava sua vida sobre os moldes da razão, da moral e dos bons costumes.
Adentrou os mares da matemática, da complexidade e do raciocínio. Uma mulher ocupada e vazia. Nunca mais passava perto do quintal, o que na verdade não mais podia ser chamado de quintal, pois o mato já roçava nos joelhos.
Ah, mas o que aqui seria uma narrativa absurdamente longa, não será. Pois não pense cá que as gavetas e as caixas rígidas do passado não se abrem. É, um dia elas abrem, pode esperar. E... abriu, portanto.
Ela sentiu uma estranha necessidade, algo que não sentia faz tempo. E estremeceu. A idade vinha buscá-la, trazendo um turbilhão de antiguíssimas sensações. Teve vontade de despir os sapatos e caminhar no jardim. Mas o faria rapidamente, na verdade, seria até rápido demais. Apenas um frescor para a mente.
Uma sensação estranha, que nem mesmo minha onisciência explica. Ela flutuou sobre os cipós e a vegetação baldia, voltou três décadas no tempo e as rugas sumiram-lhe à face. E foi aí. Em um giro, em seu momento mais efêmero e vertical que ela notou as gotas brancas e gordas que nadavam num azul tão maior. Coisa tão linda, tão linda, que piscou forçando a pálpebra para garantir que era real. Era real, era mesmo. E ela então lembrou de tudo. Das estações castigando-a sobre as urzes do quintal, do sol clareando o céu. Das nuvens. Nuvens, as amadas gotas de algodão. E por um instante sentiu-se completa, se sentiu viva. Sentiu a carne e a mente no exercício de viver. Sentiu-se plena, perfeita.
Os céus, então, alcançaram-na. Formaram um conúbio santo de total entrega... Desmaterializam um ao outro. A alma dela está livre agora. E Deus responde; os envolve num sincero abraço. Ela ouviu o canto dos pássaros. Ouviu... ah, um coelho!