--- O cotidiano essencialmente humano. Que Burgess o tenha descrito na Laranja de forma tão bizarra é provável que consterne, o que provavelmente não consternará é que as mentes ignóbeis o tenham feito de forma concreta. A “dispensa social” tornou-se um perfeito estoque para máscaras. As pessoas tendem a fugir de assuntos filosóficos e teorias existenciais, sobretudo, no que concerne em “fichar” o perfil do jovem moderno e atribuir-lhes um padrão, ainda que instintivo. Elas fogem quando lhes é proposta uma reflexão social. E isso é normal, não digo que seja bom, mas é normal.
--- Eu sempre detestei a filosofia e não tenho a intenção de fazê-lo pensar nas questões éticas da vida, mas, às vezes, cabe um pouquinho de existencialismo. E agora veja, essa nomenclatura galante é mais uma tentativa de mascarar a verdadeira profundidade disto. Como eu disse, é instintivo.
--- Perceba que a Laranja Mecânica é uma de minhas obras favoritas, e não existe melhor forma de se definir o comportamento social. Portanto, hei de tratá-la aqui como a base para o entendimento dessa “embromação” filosófica. Volto a fazer menção das máscaras. Tem horas que agente é cão, gato, peixe e lagarto, e no final das contas não sabe mesmo que pele vestir. Não sabe, não é porque se esconde atrás da personalidade humana um caráter falso e mentiroso, mas porque vem do próprio jogo social à que estamos submetidos. Quero dizer, nas muitas atitudes cotidianas as pessoas precisam saber se manter um uma hierarquia, adequar o nível de “atenciosidade” e por muitas vezes, há uma certa necessidade em maquiar a verdade.
--- Como sugere Burgess, o homem moderno está mecanizado e desde o berço tem sua predestinação. Devo afirmar que isso não é lá muita coisa, aliás, não é coisa alguma. É tudo uma questão subconsciente, não tem “bom e mau”, “certo e errado”... não tem. E Isso é horrorshow! Não tem a pessoa boa; tem a pessoa com complexo tendencioso a manifestar ações positivas e não-prejudiciais aos demais. Todo mundo é mau e isso depende muito de que máscara estamos usando. E talvez seja por isso que o Teatro é tão fascinante! Uma forma explícita de exercer uma mentira cativante!
--- Tudo é relativo. Não gosto de frases feitas, mas tenho que admitir que colhemos aquilo que plantamos. Somos complementares uns aos outros, somos feito pó velho num cinzeiro; um grãozinho de pó não faz o boêmio levantar-se da cadeira e esvaziá-lo, creio que seja mais ou menos isso – e eu não sou a melhor pessoa para lhe dar exemplos. Tudo é relativo e toda rotulação é burra.
--- Tal qual De Large e seus druggies, essa insensatez torna-se absurda quando comparada aos moldes do homem civilizado. Mas se lhes disser que é menos a civilização e mais qualquer outra coisa – a mente, talvez – é bem provável que não acredite. E freud NÃO explica. Agora, ainda que eu tenha respeito às opiniões alheias, é extremamente frustrante essa sua descrença infundada. Algo que contribui para essa acoplagem sem freio. Essa massa cinzenta de marionetes mutiladas, as quais o domador é de natureza acéfala. É triste, mas essas reflexões “tardias” condizem perfeitamente com o século presente. E o mais revoltante é perceber que essas palavras bonitas – que eu tanto indago – são merda em pó no exercício de padronizar a sociedade. Aliás, tudo é merda em pó no que diz respeito à sociedade! E para o “grand finale" eu vos digo que todas essas sentenças lidas acima não passam da mesma ignorância relatada nas primeiras frases. É, eu não sei de nada, e nem você. Niguém sabe. Os dados estão na idade da pedra, e a ciência tem parecido cada vez mais um texto de Comte! Absurdo!
--- Tudo bem, vou me acalmar. É bem capaz que eu venha a perder minha sanidade – isso, se já não o fiz! – além do mais, é uma forma bem estranha de texto. Eu sei disso. E sei também que se cinco pessoas estejam lendo isso agora, é muito! Cinco? Talvez duas. Quer saber? Eu dispenso a sua atenção. Afinal, você não sou eu, e por mais que fosse, é mesmo tudo “tão bizarro quanto uma Laranja Mecânica”.
sábado, 14 de junho de 2008
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Sob o Céu turquesa, descansam olhos.
Qualquer que fosse a sombra projetada perto da menina, qualquer que fosse o rastro de penumbra sobre os gomos de sua saia, nada fazia valer importância. Qualquer coisa lhe era dispensável, qualquer sabor de morango, qualquer coisa alguma, tudo estava distante e proporcionalmente afastado ao seu estado de espírito. Quando os raios solares marcavam-na a pele, quando a chuva lhe feria os pulsos e, sobretudo, quando a relva matutina a tornava obcecada em descortinar formas às nuvens. Na verdade, era esse o seu plano de vida, viver com a vista nas nuvens, esperando ver novos contornos celestes. Sua máxima era sentar no toco tomado de fungos e descansar a vista nelas. Ela amava as nuvens. Passava horas a fio a desvendar a magia que elas encerram. Nada além da natureza, adornando a vida daquela menina, nada mais puro que sua íris espelhada, nada mais cativante... Maluca? Talvez. Ela não tinha muitos amigos, na verdade, não os possuía mesmo, e esse não era o maior dos problemas. As pessoas descrentes e instruídas, os dotados dos “bons modos” achavam-na a rainha dos bobos. Mas como vos disse, pouco importava a opinião pública, e quando a perguntavam o que de tão belo havia no céu, ela dizia estar “contormejando” as nuvens, contornava e almejava... É claro que o eufemismo não lhe poupava à exposição e, de certa forma, dava-lhe certos ápices de prazer quando distinguia um coelho, ou um cordeiro nas nuvens, aquilo aguava seus olhos de tal maneira inexplicável.
Traçou metas impossíveis e fez promessas aos deuses mais díspares. Sonhou puritanamente com sua liberdade e tentou por fim ao limite. E foste tão cruel consigo mesma que por muitas vezes teve a esperança abalada, tropeçou e cada dia a distanciava mais das nuvens. Começou a realizar um futuro frustrado, cheio de lacunas a se preencher por algo que nunca foi, e aos poucos derramava os sonhos no papel e os arquivava em gavetas há muito esquecidas. Fechou os olhos, então. Deitou a cabeça sobre a grama fresca e gélida e pôs-se a dormir.
A chaga eterna que marcou seu peito doía ardentemente sobre o botão de prata. Parte de sua alma estava nas nuvens, e jamais alcançaria seu id perfeito e selvagem. Aquilo de certa forma provocou um novo parto na menina. Um parto e um aparto de seus sonhos pueris, um aceno de mão eterno. Sem maiores brasas de esperança, e desiludida com seu platonismo celeste, ela guardou tudo numa caixinha chamada memória.
E cresceu. Virou mulher, estudou. Ficou famosa, invejada, rica. Fugaz, astuta, maliciosa. Pautava sua vida sobre os moldes da razão, da moral e dos bons costumes.
Adentrou os mares da matemática, da complexidade e do raciocínio. Uma mulher ocupada e vazia. Nunca mais passava perto do quintal, o que na verdade não mais podia ser chamado de quintal, pois o mato já roçava nos joelhos.
Ah, mas o que aqui seria uma narrativa absurdamente longa, não será. Pois não pense cá que as gavetas e as caixas rígidas do passado não se abrem. É, um dia elas abrem, pode esperar. E... abriu, portanto.
Ela sentiu uma estranha necessidade, algo que não sentia faz tempo. E estremeceu. A idade vinha buscá-la, trazendo um turbilhão de antiguíssimas sensações. Teve vontade de despir os sapatos e caminhar no jardim. Mas o faria rapidamente, na verdade, seria até rápido demais. Apenas um frescor para a mente.
Uma sensação estranha, que nem mesmo minha onisciência explica. Ela flutuou sobre os cipós e a vegetação baldia, voltou três décadas no tempo e as rugas sumiram-lhe à face. E foi aí. Em um giro, em seu momento mais efêmero e vertical que ela notou as gotas brancas e gordas que nadavam num azul tão maior. Coisa tão linda, tão linda, que piscou forçando a pálpebra para garantir que era real. Era real, era mesmo. E ela então lembrou de tudo. Das estações castigando-a sobre as urzes do quintal, do sol clareando o céu. Das nuvens. Nuvens, as amadas gotas de algodão. E por um instante sentiu-se completa, se sentiu viva. Sentiu a carne e a mente no exercício de viver. Sentiu-se plena, perfeita.
Os céus, então, alcançaram-na. Formaram um conúbio santo de total entrega... Desmaterializam um ao outro. A alma dela está livre agora. E Deus responde; os envolve num sincero abraço. Ela ouviu o canto dos pássaros. Ouviu... ah, um coelho!
Traçou metas impossíveis e fez promessas aos deuses mais díspares. Sonhou puritanamente com sua liberdade e tentou por fim ao limite. E foste tão cruel consigo mesma que por muitas vezes teve a esperança abalada, tropeçou e cada dia a distanciava mais das nuvens. Começou a realizar um futuro frustrado, cheio de lacunas a se preencher por algo que nunca foi, e aos poucos derramava os sonhos no papel e os arquivava em gavetas há muito esquecidas. Fechou os olhos, então. Deitou a cabeça sobre a grama fresca e gélida e pôs-se a dormir.
A chaga eterna que marcou seu peito doía ardentemente sobre o botão de prata. Parte de sua alma estava nas nuvens, e jamais alcançaria seu id perfeito e selvagem. Aquilo de certa forma provocou um novo parto na menina. Um parto e um aparto de seus sonhos pueris, um aceno de mão eterno. Sem maiores brasas de esperança, e desiludida com seu platonismo celeste, ela guardou tudo numa caixinha chamada memória.
E cresceu. Virou mulher, estudou. Ficou famosa, invejada, rica. Fugaz, astuta, maliciosa. Pautava sua vida sobre os moldes da razão, da moral e dos bons costumes.
Adentrou os mares da matemática, da complexidade e do raciocínio. Uma mulher ocupada e vazia. Nunca mais passava perto do quintal, o que na verdade não mais podia ser chamado de quintal, pois o mato já roçava nos joelhos.
Ah, mas o que aqui seria uma narrativa absurdamente longa, não será. Pois não pense cá que as gavetas e as caixas rígidas do passado não se abrem. É, um dia elas abrem, pode esperar. E... abriu, portanto.
Ela sentiu uma estranha necessidade, algo que não sentia faz tempo. E estremeceu. A idade vinha buscá-la, trazendo um turbilhão de antiguíssimas sensações. Teve vontade de despir os sapatos e caminhar no jardim. Mas o faria rapidamente, na verdade, seria até rápido demais. Apenas um frescor para a mente.
Uma sensação estranha, que nem mesmo minha onisciência explica. Ela flutuou sobre os cipós e a vegetação baldia, voltou três décadas no tempo e as rugas sumiram-lhe à face. E foi aí. Em um giro, em seu momento mais efêmero e vertical que ela notou as gotas brancas e gordas que nadavam num azul tão maior. Coisa tão linda, tão linda, que piscou forçando a pálpebra para garantir que era real. Era real, era mesmo. E ela então lembrou de tudo. Das estações castigando-a sobre as urzes do quintal, do sol clareando o céu. Das nuvens. Nuvens, as amadas gotas de algodão. E por um instante sentiu-se completa, se sentiu viva. Sentiu a carne e a mente no exercício de viver. Sentiu-se plena, perfeita.
Os céus, então, alcançaram-na. Formaram um conúbio santo de total entrega... Desmaterializam um ao outro. A alma dela está livre agora. E Deus responde; os envolve num sincero abraço. Ela ouviu o canto dos pássaros. Ouviu... ah, um coelho!
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Santa dor que me punge.
--- Meus olhos descansam nos teus. Mas você parece não perceber ou importar-se com isso, não... você não entende. Você nunca vai entender, nem enxergar, sabe por quê? Porque você não quer, você nunca quis. E é tão insignificante para você o que eu sinto.
Você nunca me visita... É agonizante ver-te por uma só vez em sete. Eu quero ter você mais vezes, mas isso não é digno de importância, é... você está bem assim, por um ano de paz e calmaria. E eu sinto tanto em ser o outro... Eu não queria ser assim.
--- Amo encontra-te listrada, amo tanto os teus olhos – como os amo. Tem sido extremamente difícil, mais para mim que para qualquer outra alma. Aliás, eu não sei bem o que está acontecendo... Tenho estado por muitas vezes em cólera profunda, afogado em águas gélidas. Tão próximo... e tão distante da sua janelinha, da sua persiana, de você... tão afastado das coisas boas, das TUAS coisas. Sim, tudo isso pode ser inesperado, mas é aonde eu me encontro, no alto da colina fria, onde o vento é cortante no verão e dilacera o amor no inverno.
--- Não era de acreditar em sentimentos fortes e quentes, tampouco cair de amores desesperados, tudo isso é novo para mim, pode acreditar. Eu te amo, querida, eu te amo. O que mais fazer para mostrar-te? Hem, diga-me, que faço para trazer-te ao meu lado e encostar a cabeça em teu ombro, no teu suéter vermelho. Quantas vezes mais preciso desejar-te aqui, comigo? E tirar-lhe boas risadas e expressões de puro inglês? Viver tua fala na pele... embolar passos fora de compasso, ouvir sobre você, respirar você.
--- Nesse dia eu vivo, eu espero com a ansiedade de mil pés aveludados. Eu conto as frações que me restam longe de ti. E quando ele chega, me transfiguro em você, ponho as pálpebras na tua direção e espero você vir me chamar por outro nome. Preparo o coração três horas antes, para te curtir indiretamente; a sua voz, a sua loucura, o teu ar de jovem e os olhos sábios e vividos – os que me levam a segurança das matas verdes – seus olhos tingidos de preto... Em você o preto se torna a mais alegre das cores. Tudo em você é perfeito, mas dura pouco. Quando o dia acaba e você vai-se apressada, você me assassina, acaba de me matar, e eu hiberno no frio. Veja, o que na verdade me mantém é saber que dali em sete vou te ver novamente, com teus olhinhos brilhantes e pueris. E essa é minha anestesia.
--- “Amo o chão que pisa, o ar que respira, tudo quanto toca e tudo quanto diz. Amo todos os seus olhares e todos os seus gestos, amo-te toda inteira, completamente. Aí está”
--- Bicicletas, mundos mágicos, colinas em verde manto, pequeninos sábios, medo no natal, puxador de charretes do submundo, filhos pródigos, e uma mãe amada. Coisas tuas. Sagardas coisas! Coisas que eu guardo em mim, que vão jazer na minha memória e colorir esse último ano da tua arte. Espero ler toda vida a sua vida, poder encharcar de luz o teu palco.
--- Sabe o que eu quero com isso? Não explodir. Diminuir a angustia e te mostrar o que a boca não é capaz de fazer. Tudo bem se não me amar, eu só vou morrer aos poucos... Você vai sepultar-me em terra sem a vontade, e eu aceito isso. Eu respeito isso e sou incapaz de sentir outra coisa, senão o mais fervoroso dos amores. Agora vê? Fico satisfeito. Mesmo que não mude patavinas, há algo maior e mais belo, e que nada nem ninguém pode me negar a possuir. Algo que habitará para sempre a minha existência. Eu tenho você em mim. Eu sou você.
Você nunca me visita... É agonizante ver-te por uma só vez em sete. Eu quero ter você mais vezes, mas isso não é digno de importância, é... você está bem assim, por um ano de paz e calmaria. E eu sinto tanto em ser o outro... Eu não queria ser assim.
--- Amo encontra-te listrada, amo tanto os teus olhos – como os amo. Tem sido extremamente difícil, mais para mim que para qualquer outra alma. Aliás, eu não sei bem o que está acontecendo... Tenho estado por muitas vezes em cólera profunda, afogado em águas gélidas. Tão próximo... e tão distante da sua janelinha, da sua persiana, de você... tão afastado das coisas boas, das TUAS coisas. Sim, tudo isso pode ser inesperado, mas é aonde eu me encontro, no alto da colina fria, onde o vento é cortante no verão e dilacera o amor no inverno.
--- Não era de acreditar em sentimentos fortes e quentes, tampouco cair de amores desesperados, tudo isso é novo para mim, pode acreditar. Eu te amo, querida, eu te amo. O que mais fazer para mostrar-te? Hem, diga-me, que faço para trazer-te ao meu lado e encostar a cabeça em teu ombro, no teu suéter vermelho. Quantas vezes mais preciso desejar-te aqui, comigo? E tirar-lhe boas risadas e expressões de puro inglês? Viver tua fala na pele... embolar passos fora de compasso, ouvir sobre você, respirar você.
--- Nesse dia eu vivo, eu espero com a ansiedade de mil pés aveludados. Eu conto as frações que me restam longe de ti. E quando ele chega, me transfiguro em você, ponho as pálpebras na tua direção e espero você vir me chamar por outro nome. Preparo o coração três horas antes, para te curtir indiretamente; a sua voz, a sua loucura, o teu ar de jovem e os olhos sábios e vividos – os que me levam a segurança das matas verdes – seus olhos tingidos de preto... Em você o preto se torna a mais alegre das cores. Tudo em você é perfeito, mas dura pouco. Quando o dia acaba e você vai-se apressada, você me assassina, acaba de me matar, e eu hiberno no frio. Veja, o que na verdade me mantém é saber que dali em sete vou te ver novamente, com teus olhinhos brilhantes e pueris. E essa é minha anestesia.
--- “Amo o chão que pisa, o ar que respira, tudo quanto toca e tudo quanto diz. Amo todos os seus olhares e todos os seus gestos, amo-te toda inteira, completamente. Aí está”
--- Bicicletas, mundos mágicos, colinas em verde manto, pequeninos sábios, medo no natal, puxador de charretes do submundo, filhos pródigos, e uma mãe amada. Coisas tuas. Sagardas coisas! Coisas que eu guardo em mim, que vão jazer na minha memória e colorir esse último ano da tua arte. Espero ler toda vida a sua vida, poder encharcar de luz o teu palco.
--- Sabe o que eu quero com isso? Não explodir. Diminuir a angustia e te mostrar o que a boca não é capaz de fazer. Tudo bem se não me amar, eu só vou morrer aos poucos... Você vai sepultar-me em terra sem a vontade, e eu aceito isso. Eu respeito isso e sou incapaz de sentir outra coisa, senão o mais fervoroso dos amores. Agora vê? Fico satisfeito. Mesmo que não mude patavinas, há algo maior e mais belo, e que nada nem ninguém pode me negar a possuir. Algo que habitará para sempre a minha existência. Eu tenho você em mim. Eu sou você.
sexta-feira, 9 de maio de 2008
Tinteiro orgânico.
Sinto que estou morrendo. É tanto físico quanto mental.
A cada dia que passa, viver se torna mais difícil. Suplico ardentemente à morte: "que venha me confortar, minha boa morte!". Neste nefasto aposento, onde a carne pede pela piedade, as torturas me acalmam serenamente. A epiderme me dói.
Hoje acordei com ódio, o que não é diferente dos demais dias, a dor vem-me sempre, chego a não mais senti-la. Meu sangue parece ter parado e acho que minha mente já não segue o tempo cronológico das coisas.
Meus braços estão frios e não sinto mais as pernas. Deram-me três meses. Acho muito.
Nesta prisão, de paredes tristes e opacas, viverei os últimos dias de minha vida. E há quem diga que a esperança é a última que morre. Mentira. A minha está morta, e seus próprios vermes a devoram.
Nesta carcaça doente que vos escreve, está retida toda maldade e todo ódio inútil, por assim dizer. Talves seja inútil para mim, ou quem sabe não.
Talvez, seja realmente necessário passar por isso. Não me queixo, ainda não. Em breve, bem breve mesmo, eu já não vou sentir mais dor.
O inverno tem sido longo. Oitos anos, acho.
Quem sabe lá no céu eu possa ver as tulipas, correr pela imensidão dos pastos a fora, é... Quem sabe. Eu não sei, talvez eu vá arder as costas no fogo eterno. A julgar pelas vidas que tirei...
Seria ingratidão minha dizer que sofro, apesar de que sofro, mas estou contente com a dor, será tudo diferente. Amanhã, eu vou amar de novo, de noite, me embalar no sereno e a última lágrima tocará o chão, e levará consigo toda a minha dor.
E vai borrar esta carta escrita com sangue.
Espero que tenhas mais alegrias em tua vida, eu tive pouca. Espero que consiga sair daqui. Sinceramente, eu espero.
Assim, deixo-te com esta carta, e com meu último sopro de vida. E se fores, fiel leitor, um de meus algozes: obrigado.
A cada dia que passa, viver se torna mais difícil. Suplico ardentemente à morte: "que venha me confortar, minha boa morte!". Neste nefasto aposento, onde a carne pede pela piedade, as torturas me acalmam serenamente. A epiderme me dói.
Hoje acordei com ódio, o que não é diferente dos demais dias, a dor vem-me sempre, chego a não mais senti-la. Meu sangue parece ter parado e acho que minha mente já não segue o tempo cronológico das coisas.
Meus braços estão frios e não sinto mais as pernas. Deram-me três meses. Acho muito.
Nesta prisão, de paredes tristes e opacas, viverei os últimos dias de minha vida. E há quem diga que a esperança é a última que morre. Mentira. A minha está morta, e seus próprios vermes a devoram.
Nesta carcaça doente que vos escreve, está retida toda maldade e todo ódio inútil, por assim dizer. Talves seja inútil para mim, ou quem sabe não.
Talvez, seja realmente necessário passar por isso. Não me queixo, ainda não. Em breve, bem breve mesmo, eu já não vou sentir mais dor.
O inverno tem sido longo. Oitos anos, acho.
Quem sabe lá no céu eu possa ver as tulipas, correr pela imensidão dos pastos a fora, é... Quem sabe. Eu não sei, talvez eu vá arder as costas no fogo eterno. A julgar pelas vidas que tirei...
Seria ingratidão minha dizer que sofro, apesar de que sofro, mas estou contente com a dor, será tudo diferente. Amanhã, eu vou amar de novo, de noite, me embalar no sereno e a última lágrima tocará o chão, e levará consigo toda a minha dor.
E vai borrar esta carta escrita com sangue.
Espero que tenhas mais alegrias em tua vida, eu tive pouca. Espero que consiga sair daqui. Sinceramente, eu espero.
Assim, deixo-te com esta carta, e com meu último sopro de vida. E se fores, fiel leitor, um de meus algozes: obrigado.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
O carnaval da madrugada.
--- O semi-árido é como que palco do Brasil, cada fenda que brota é um sonho, é pena virar erosão com toda sua homogeneidade. É sim, a lógica de um perfeito Brasil de poucas cores e de essência rara e fragmentada. E é para lá dos sertões que passa o carnaval da madrugada.
--- Na totalidade, eram bonecos de pano gasto. Em um coro de lamento pelo agreste, aquela onda trazia ainda mais sombra, aderindo-se aos bumbos e flautins. Parecia um tanto quanto distante, talvez seja ele um mau juízo da miragem, ou da reza profana... Não, não era simples ilusão, estava lá, um cativante carnaval de novembro, cantado em ouro e bronze.
--- E a parada que tanto se escuta, carrega consigo os ribeirinhos de mentira e de saliva seca. E a peça de roupa úmida fica na margem, só observando a graça esculpida na grande farsa do carnaval. E aquela gente jardinava entre os passos o que um dia fora um deserto dos mais quentes. A mãe era ao mesmo tempo senhora e filho febril, ambos de pés rachados, caminhando e indagando o que há muito não se via nas calçadas do Brasil.
--- Houve a perda e a morte na terça, no entanto, não pudera o céu curar a dor do aparto. E assim aquelas pessoas pouco davam importância aos corpos, elas seguiam cegas pelo bloco. Os jovens e os velhos, todos perpetuavam o ritual, e a lepra e o câncer sararam pelos três dias. O bloco seguia para o sul.
--- Do gado, do mato, de algum lugar saía a marcha desenfreada, e não pense haver uma razão que justifica tamanha peregrinação, pois não há, o combustível era o suor. Até a quarta ninguém falou, eram risos e fardos do bloco ascendendo ao morro em busca de acoplar toda a gente. Não era possível distinguir tronco e membro do cardume, ele era um só, e os pés tinham a mais perfeita sincronia... E já totalizavam a infinidade.
--- Ninguém nunca soube quem eram aqueles, talvez fossem almas errantes... E para onde iam? As perguntas dilatavam-se agora na ponta do continente, a beira mar. Nada podia conter a manada, e a rua estendeu-se pelo oceano. Oh, quantas daquelas pessoas nunca retornariam às suas casas... Elas já sagravam a carne, mas isso não importava. Era sangue e poeira, poeira e sangue, e só.
--- Era impossível vê-las como gente, faziam-se passar por marionetes. Todas iguais, a mesma face e o mesmo fim. As chagas da perna deixavam um rastro vermelho por onde passava aquele bloco. Qualquer dor não importava, na verdade, não era coerente atribuir sentido àquilo, e resumia-se a um enorme lençol de anônimos rastejantes.
--- Ah! E eu fui pego pelo bloco. E no fim, as cabeças eram as próprias lápides, e os vermes eram eles próprios. O carnaval da madrugada peregrina até os dias de hoje, e cada vez mais numeroso. É... e eles ainda derramam sangue, aliás, como demora a quarta de cinzas!
--- Na totalidade, eram bonecos de pano gasto. Em um coro de lamento pelo agreste, aquela onda trazia ainda mais sombra, aderindo-se aos bumbos e flautins. Parecia um tanto quanto distante, talvez seja ele um mau juízo da miragem, ou da reza profana... Não, não era simples ilusão, estava lá, um cativante carnaval de novembro, cantado em ouro e bronze.
--- E a parada que tanto se escuta, carrega consigo os ribeirinhos de mentira e de saliva seca. E a peça de roupa úmida fica na margem, só observando a graça esculpida na grande farsa do carnaval. E aquela gente jardinava entre os passos o que um dia fora um deserto dos mais quentes. A mãe era ao mesmo tempo senhora e filho febril, ambos de pés rachados, caminhando e indagando o que há muito não se via nas calçadas do Brasil.
--- Houve a perda e a morte na terça, no entanto, não pudera o céu curar a dor do aparto. E assim aquelas pessoas pouco davam importância aos corpos, elas seguiam cegas pelo bloco. Os jovens e os velhos, todos perpetuavam o ritual, e a lepra e o câncer sararam pelos três dias. O bloco seguia para o sul.
--- Do gado, do mato, de algum lugar saía a marcha desenfreada, e não pense haver uma razão que justifica tamanha peregrinação, pois não há, o combustível era o suor. Até a quarta ninguém falou, eram risos e fardos do bloco ascendendo ao morro em busca de acoplar toda a gente. Não era possível distinguir tronco e membro do cardume, ele era um só, e os pés tinham a mais perfeita sincronia... E já totalizavam a infinidade.
--- Ninguém nunca soube quem eram aqueles, talvez fossem almas errantes... E para onde iam? As perguntas dilatavam-se agora na ponta do continente, a beira mar. Nada podia conter a manada, e a rua estendeu-se pelo oceano. Oh, quantas daquelas pessoas nunca retornariam às suas casas... Elas já sagravam a carne, mas isso não importava. Era sangue e poeira, poeira e sangue, e só.
--- Era impossível vê-las como gente, faziam-se passar por marionetes. Todas iguais, a mesma face e o mesmo fim. As chagas da perna deixavam um rastro vermelho por onde passava aquele bloco. Qualquer dor não importava, na verdade, não era coerente atribuir sentido àquilo, e resumia-se a um enorme lençol de anônimos rastejantes.
--- Ah! E eu fui pego pelo bloco. E no fim, as cabeças eram as próprias lápides, e os vermes eram eles próprios. O carnaval da madrugada peregrina até os dias de hoje, e cada vez mais numeroso. É... e eles ainda derramam sangue, aliás, como demora a quarta de cinzas!
domingo, 13 de abril de 2008
Dias felizes são raros.
... Porque naquele dia eu senti a areia entre os dedos. E o escuro não me trouxe coisa alguma. Porque eu nasci na véspera, entre o minuto final de ontem. O dia em que a geada não veio. A lua surgiu cedinho, e pôs-se a admirar o sol. Foram vinte e quatro horas de amor. Mãe e eu. Doce senhorinha dos lenços orientais.
--- Não cabe dor no meu dia, foi tão diferente de tudo. Tiramos uma foto em que a mamãe sorriu, nunca pudera eu admirar seu lindo sorriso. Éramos os dois, um só elo de mãos dadas, marcando as pegadas na praia... Naquele dia não choveu, e nós fomos de bicicleta à praia, e os muitos centavos de nosso cofre não pagam o que eu sentia.
--- Eu tinha três anos, mamãe já estava doente, quase não saía da cama. Eu pedi tanto, que naquele dia ela me levou à praia. Mamãe levou uma cestinha envolta numa toalha xadrez cheia de pãezinhos que ela mesma preparou. Bem fomos nós pela estrada do matagal, a terra cheirava - ou o pão, vá saber- ...
--- Amor de mãe é sempre bom, claro que eu tive pouco, mas o suficiente para validar o sentimento, era realmente bom, eu sinto falta. Ela virou uma estrela nova e linda, talvez tivesse ela que cuidar de alguma flor, e só deixou-me estrelas que riem.
--- O dia engatinhava para o fim, mamãe trouxe-me uma pombinha engaiolada cheia de pesar, solfejando seu suor em forma de música. Tinha a asa esquerda quebrada e mamãe deixou-a aos meus cuidados. Eu não sabia da magia da metáfora, mas vá lá, eu gostei dela. Mas como a manhã vai, eu volto ao meu dia, o mais feliz deles. A essência estava toda no sorriso, nos cabelos negros que o sol reluzia. Eu era bem diminuto, mas esperto, e como era. Mas eu sabia que ela iria viajar e se hospedar num lugar bem tranqüilo. E a passagem estava comprada, portanto, tratei de fazer o dia feliz. Um singelo dia feliz.
--- Não se deve apostar na memória, e de fato, os dias caem no esquecimento, os dias são passageiros e evaporam-se como as lágrimas. Todavia, as lágrimas do meu dia eram lágrimas de amor, e a estas não reserva espaço à atmosfera. Agora, admito que muitos dos relatos provêm da mente, e a mente é a maior das suseranas, faz sempre o que lhe cabe, e o que quer. Portanto, não vá tornar insano, o meu dia.
--- Não reservo mágoas, nem dor. Pudera eu fazer algo, senão deixá-la ir? É triste, mas é fato. Ela foi e deixou-me um “flashback” presente nas linhas tortas de minha história.
E é tão comum nos perdermos no tempo...
--- Naquele dia, mamãe usava um vestido azul, e parecia fazer parte do mar, do imenso azul que ela contemplava, e que as lágrimas, exatamente iguais ao mar, foram poucas. Ela vivia outra vez. Ela me disse que os sonhos nem sempre são de mentira, e que os pesadelos já não existiam mais. E nós dormimos, adornados pelo céu alaranjado da tardinha. Mamãe espelhava o mar, e sua voz chamava ao marulhar das ondas. Naquele dia, no minuto de ontem ela se foi, e eu ouvia o marulhar das ondas.
--- Não cabe dor no meu dia, foi tão diferente de tudo. Tiramos uma foto em que a mamãe sorriu, nunca pudera eu admirar seu lindo sorriso. Éramos os dois, um só elo de mãos dadas, marcando as pegadas na praia... Naquele dia não choveu, e nós fomos de bicicleta à praia, e os muitos centavos de nosso cofre não pagam o que eu sentia.
--- Eu tinha três anos, mamãe já estava doente, quase não saía da cama. Eu pedi tanto, que naquele dia ela me levou à praia. Mamãe levou uma cestinha envolta numa toalha xadrez cheia de pãezinhos que ela mesma preparou. Bem fomos nós pela estrada do matagal, a terra cheirava - ou o pão, vá saber- ...
--- Amor de mãe é sempre bom, claro que eu tive pouco, mas o suficiente para validar o sentimento, era realmente bom, eu sinto falta. Ela virou uma estrela nova e linda, talvez tivesse ela que cuidar de alguma flor, e só deixou-me estrelas que riem.
--- O dia engatinhava para o fim, mamãe trouxe-me uma pombinha engaiolada cheia de pesar, solfejando seu suor em forma de música. Tinha a asa esquerda quebrada e mamãe deixou-a aos meus cuidados. Eu não sabia da magia da metáfora, mas vá lá, eu gostei dela. Mas como a manhã vai, eu volto ao meu dia, o mais feliz deles. A essência estava toda no sorriso, nos cabelos negros que o sol reluzia. Eu era bem diminuto, mas esperto, e como era. Mas eu sabia que ela iria viajar e se hospedar num lugar bem tranqüilo. E a passagem estava comprada, portanto, tratei de fazer o dia feliz. Um singelo dia feliz.
--- Não se deve apostar na memória, e de fato, os dias caem no esquecimento, os dias são passageiros e evaporam-se como as lágrimas. Todavia, as lágrimas do meu dia eram lágrimas de amor, e a estas não reserva espaço à atmosfera. Agora, admito que muitos dos relatos provêm da mente, e a mente é a maior das suseranas, faz sempre o que lhe cabe, e o que quer. Portanto, não vá tornar insano, o meu dia.
--- Não reservo mágoas, nem dor. Pudera eu fazer algo, senão deixá-la ir? É triste, mas é fato. Ela foi e deixou-me um “flashback” presente nas linhas tortas de minha história.
E é tão comum nos perdermos no tempo...
--- Naquele dia, mamãe usava um vestido azul, e parecia fazer parte do mar, do imenso azul que ela contemplava, e que as lágrimas, exatamente iguais ao mar, foram poucas. Ela vivia outra vez. Ela me disse que os sonhos nem sempre são de mentira, e que os pesadelos já não existiam mais. E nós dormimos, adornados pelo céu alaranjado da tardinha. Mamãe espelhava o mar, e sua voz chamava ao marulhar das ondas. Naquele dia, no minuto de ontem ela se foi, e eu ouvia o marulhar das ondas.
terça-feira, 8 de abril de 2008
A vida é imunda
--- O relógio marcava três horas de uma tarde de ontem, e a vontade de um café pegou-me desprevenido. Fui à padaria com seis moedas e trouxe um saquinho de pó que de alguma forma pudesse saciar meu desejo. Na volta, ao cruzar com o “cinema” da esquina, aonde as coisas mais estranhas acontecem, vi três vira-latas, e um deles veio até mim afim de faturar alguma comida. Presenciei, também, uma cena digamos que corriqueira e ainda assim desumana.
--- Um menino, de roupas sujas e desbotadas, ocupava uma barraquinha de pipoca, tão mais suja e tão mais desbotada que suas roupas. Era um pobre figurante, em meio a uma infinidade de pés apressados, e por um instante tomou minha atenção. Pensei em trocar a sexta moeda por um saquinho lilás de pipoca. Teria feito se não fosse um homem, um tanto antipático num terno marrom. Entrou na minha frente. Tinha um ar de superioridade e fazia questão de por amostra seu Rolex francês. Ele impôs ordem e pediu pela pipoca, então o pequeno apressou-se e em dois tempos a pipoca estava nas mãos do homem. O senhor fez questão de reclamar do custo e da pouca quantidade, mas entregou os dois reais, e saiu com pressa.
--- Como se já tivesse visto cena parecida, me fiz indiferente, e pedi pela minha pipoca, que demorou um tempo significativamente maior que o do sujeito precedente. Durante a espera, não pude deixar de reparar na placa da barraca, quase toda coberta pela ferrugem. Dizia: “pipoquinha especial e colorida”. Na hora, isso não me levou à reflexão alguma... Exceto pelas "branquinhas" que felizes, eram como padrão oposto, face ao menino de expressão triste.
--- A pipoca enfim ficou pronta, e eu tomava o rumo de casa quando um grito trouxe de volta o terno marrom tingido com labaredas enfurecidas. O homem veio aos berros, com as bochechas vermelhas como as de um tomate e derramou o resto da pipoca e alguns milhos “não estourados” numa poça negra e fedida de esgoto. A lama densa fazia com os milhos flutuarem. O homem alegou que as pipocas estavam frias e exigiu seu dinheiro de volta. O menino em toda sua humildade, disse que a barraca pertencia ao seu chefe e nada podia fazer, uma vez que o chefe controlava a proporção entre o milho gasto e o capital recolhido. Ele também preparara a pipoca, certificando-se que esta estava aquecida. O homem, então, sacou o saquinho lilás amassado e pôs-se a recolher os milhos que nadavam na poça de esgoto, juntou no saquinho os milhos envolvidos no visco e devolveu ao menino. Empurrou-o contra a parede e tornou a exigir o dinheiro. O menino, sem mais o que fazer, pegou os milhos encardidos e devolveu as duas moedas gordas e impregnadas de maldade ao homem. Pude notar um sorriso torto...
--- Meus olhos ameaçavam chover e com o fim do escândalo enfim retornei. O café não tinha mais graça, eu estava agora tomado por uma dolorosa reflexão e um ódio doentio por aquele terno marrom. O dia terminou sem resposta.
--- Hoje, acordei duas horas mais tarde que o normal, fui à cozinha tomar água e voltei para cama com medo do mundo. A imagem do menino não fugia a mente e uma pergunta lançou-se no ar, talvez eterna e matematicamente inexplicável.
O que é o homem? Quem se arrisca, hein?
--- Um menino, de roupas sujas e desbotadas, ocupava uma barraquinha de pipoca, tão mais suja e tão mais desbotada que suas roupas. Era um pobre figurante, em meio a uma infinidade de pés apressados, e por um instante tomou minha atenção. Pensei em trocar a sexta moeda por um saquinho lilás de pipoca. Teria feito se não fosse um homem, um tanto antipático num terno marrom. Entrou na minha frente. Tinha um ar de superioridade e fazia questão de por amostra seu Rolex francês. Ele impôs ordem e pediu pela pipoca, então o pequeno apressou-se e em dois tempos a pipoca estava nas mãos do homem. O senhor fez questão de reclamar do custo e da pouca quantidade, mas entregou os dois reais, e saiu com pressa.
--- Como se já tivesse visto cena parecida, me fiz indiferente, e pedi pela minha pipoca, que demorou um tempo significativamente maior que o do sujeito precedente. Durante a espera, não pude deixar de reparar na placa da barraca, quase toda coberta pela ferrugem. Dizia: “pipoquinha especial e colorida”. Na hora, isso não me levou à reflexão alguma... Exceto pelas "branquinhas" que felizes, eram como padrão oposto, face ao menino de expressão triste.
--- A pipoca enfim ficou pronta, e eu tomava o rumo de casa quando um grito trouxe de volta o terno marrom tingido com labaredas enfurecidas. O homem veio aos berros, com as bochechas vermelhas como as de um tomate e derramou o resto da pipoca e alguns milhos “não estourados” numa poça negra e fedida de esgoto. A lama densa fazia com os milhos flutuarem. O homem alegou que as pipocas estavam frias e exigiu seu dinheiro de volta. O menino em toda sua humildade, disse que a barraca pertencia ao seu chefe e nada podia fazer, uma vez que o chefe controlava a proporção entre o milho gasto e o capital recolhido. Ele também preparara a pipoca, certificando-se que esta estava aquecida. O homem, então, sacou o saquinho lilás amassado e pôs-se a recolher os milhos que nadavam na poça de esgoto, juntou no saquinho os milhos envolvidos no visco e devolveu ao menino. Empurrou-o contra a parede e tornou a exigir o dinheiro. O menino, sem mais o que fazer, pegou os milhos encardidos e devolveu as duas moedas gordas e impregnadas de maldade ao homem. Pude notar um sorriso torto...
--- Meus olhos ameaçavam chover e com o fim do escândalo enfim retornei. O café não tinha mais graça, eu estava agora tomado por uma dolorosa reflexão e um ódio doentio por aquele terno marrom. O dia terminou sem resposta.
--- Hoje, acordei duas horas mais tarde que o normal, fui à cozinha tomar água e voltei para cama com medo do mundo. A imagem do menino não fugia a mente e uma pergunta lançou-se no ar, talvez eterna e matematicamente inexplicável.
O que é o homem? Quem se arrisca, hein?
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